terça-feira, 24 de novembro de 2009

“Diga-me o que sentes” disse ela a alguém, e ouviu a resposta negativa da imagem turva, bruxuleante por dentre as sombras.

Se ao menos soubesse o que sentia largar-se-ia no precipício de sua inconsciência, mas de tudo que ela tinha fez-se nada.

Eis que o vulto simétrico chegou dela mais perto e exalou o perfume de outrora, uma vela se apagou no candelabro. Arrepio se deu n´alma.

A hora era calma, aproximava à cada minuto o amanhecer; “te busquei a cada momento, contornei os pensamentos mas não te vi” disse.

Você me esperou demais e na angústia não há paz, na ânsia só há tempestade, nem árvore ou casa de pedra, por solidão chama-o tu majestade”.

Mas ela não podia compreender, não sabia nem com quem falava, mas falava e por aquele esperava e esperou tanto que sua mente foi num desencanto contínuo mergulhar no chão.

O galo cantou e o sol já vinha, a última vela do candelabro sujo se apagou e as trevas preencheram o lugar. Ela conseguiu de alguma forma tocar o vulto e esse iniciou um pranto profundo e angustiante, se abraçaram, e ela fechou os olhos e balbuciou um confuso eu te amo, uma frase no fundo pueril para ambos e de olhos fechados ainda, o vulto respondera já não amá-la tal qual antes.

Sentiu em seu pescoço o sangue quente a escorrer, abriu duma só vez os olhos e se viu abraçada (o sol já brilhava no quarto) a um espelho quebrado onde havia apenas ela e sua imagem com uma lasca pontiaguda do objeto em sua jugular, morrera ali, matara a si mesmo no outro e a imagem simétrica se completava uma vez cravada em sua carne.

Um sacrifício perfeito de sangue.

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