“Diga-me o que sentes” disse ela a alguém, e ouviu a resposta negativa da imagem turva, bruxuleante por dentre as sombras.
Se ao menos soubesse o que sentia largar-se-ia no precipício de sua inconsciência, mas de tudo que ela tinha fez-se nada.
Eis que o vulto simétrico chegou dela mais perto e exalou o perfume de outrora, uma vela se apagou no candelabro. Arrepio se deu n´alma.
A hora era calma, aproximava à cada minuto o amanhecer; “te busquei a cada momento, contornei os pensamentos mas não te vi” disse.
“Você me esperou demais e na angústia não há paz, na ânsia só há tempestade, nem árvore ou casa de pedra, por solidão chama-o tu majestade”.
Mas ela não podia compreender, não sabia nem com quem falava, mas falava e por aquele esperava e esperou tanto que sua mente foi num desencanto contínuo mergulhar no chão.
O galo cantou e o sol já vinha, a última vela do candelabro sujo se apagou e as trevas preencheram o lugar. Ela conseguiu de alguma forma tocar o vulto e esse iniciou um pranto profundo e angustiante, se abraçaram, e ela fechou os olhos e balbuciou um confuso eu te amo, uma frase no fundo pueril para ambos e de olhos fechados ainda, o vulto respondera já não amá-la tal qual antes.
Sentiu em seu pescoço o sangue quente a escorrer, abriu duma só vez os olhos e se viu abraçada (o sol já brilhava no quarto) a um espelho quebrado onde havia apenas ela e sua imagem com uma lasca pontiaguda do objeto em sua jugular, morrera ali, matara a si mesmo no outro e a imagem simétrica se completava uma vez cravada em sua carne.
Um sacrifício perfeito de sangue.
Nenhum comentário:
Postar um comentário