"E se fosse daqui cinco anos? Se eu já tivesse com a vida feita, os
planos traçados, com as prestações do carro encerradas? Daria? Eu
entendo que agora não dê, tua vida tá aí uma loucura e eu ando tentando
colocar a minha vida no eixo. É que não acontece sempre. A gente não
esbarra com o amor todo dia. E deixar, conscientemente, que ele escape
pelo tapete da porta é uma dessas coisas que dói muito fazer.
Odeio o fato do amor não bastar. Sabe? Nos filmes, bastaria. Só amor e
tudo certo. Só carinho, abraços, um beijo desses com muita pegada em
frente à porta de casa. Mas aqui, aqui as paredes tão descascando e eu
ando imaginando como vou pagar a conta de luz. E você fica aí, me
olhando, tentando arranjar a coragem que precisa pra cumprir os sonhos
que sempre quis. Tentando olhar no mapa-múndi que ruas a gente segue pra
poder se cruzar lá no final.
É justo a gente encontrar o amor depois que parou de procurar? Logo
agora que cê vai? Logo agora que eu não posso te pedir pra ficar? Depois
dos seus sonhos, será que ainda vai ter espaço pra mim? E depois dos
meus planos, será que eu não encontro outro alguém? É essa indecisão que
eu não suporto. Esse medo avassalador de que a vida nunca mais coloque
nossos caminhos no mesmo trajeto.
Se tudo fosse uma questão de hora, eu ajustava os minutos do relógio e
nos colocava em sintonia. Meu tempo encaixando com o seu. Fácil,
marcava da gente se encontrar às 21h em frente à torre Eiffel pra dar um
toque romântico à nossa história. Não parece mais bonito assim? Anotar
na agenda um dia, mês e horário pra gente voltar a se amar? Um quase
conto de fadas particular.
Mas tem tanta realidade aqui. Você vira a esquina e eu sigo reto. Daí
fico, lembrando que um dia encontrei um desses caras que valem a pena.
Um desses caras que eu amaria e amaria e amaria, até o fim. Fico aqui
pensando que nossas mãos entrelaçavam e eu descansava minha cabeça
cansada do dia no seu peito quente e acolhedor. Cê vai atrás da tua vida
e eu vou ficar aqui tentando arrumar a minha. Tentando guardar o seu
lugar.
E se fosse daqui cinco anos? Daria? Se a gente se esbarrar de novo,
ainda vai ser igual? Quem é que a gente culpa por não ter se encontrado
no momento certo? Qual o SAC pra reclamar da gente não ter conseguido
sintonizar as estações? Cê me espera no seu peito? Cê acha que eu devo
te esperar no meu? Cê acha que é besteira? Desculpa tantas perguntas, é
que eu tô aqui tentando aceitar. Sabe? Tô meio que odiando o mundo por
não ter me colocado na hora certa pra te encontrar."
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