Para a relação ser plena, as duas pessoas devem estar dispostas a compartilhar-se de modo a unir forças para evoluir juntas. Quando só uma se entrega, a união fica inviável e o casal precisa admitir até a separação. O processo pode ser doloroso, mas é uma forma de pôr fim ao sofrimento de viver um relacionamento desigual. No livro A Separação dos Amantes, o psicanalista Igor Caruso diz que "uma das mais dolorosas experiências humanas - talvez a mais dolorosa - é a separação definitiva daqueles aos quais se ama".
Esquecer o ser amado é um duro desafio, sobretudo para quem teve de separar-se pois o outro não soube ou não quis se entregar. Alguns creem que é o amor que dá consistência à união.
Não concordo. Penso que a entrega sustenta a relação. Sem ele, não há casal, apenas duas pessoas que mantêm uma relação com o propósito de usufruir interesses em comum.
Vínculos dessa qualidade escondem a covardia e a falta de criatividade dos que preferem viver sem se colocar à prova, sem se comprometer com o próprio crescimento.
A separação, nesses casos, é dolorosa, porque tira o controle de quem manteve a união estagnada. Mas não é da dor de não poder mais controlar que quero tratar. Quero falar da dor de não poder mais amar. Quando existe amor e entrega, a pessoa deseja compartilhar-se com o outro para ser um só. Quer somar forças e crescer junto. Isso não significa que vá perder a individualidade. Ao contrário. À medida que se deixa tranformar pelo outro, amplia a chance de se renovar. Mas o desejo de se unir dessa forma só pode ser satisfeito se houver entrega de ambas as partes. Se o outro não se entrega, quem ama tem de sacrificar o seu amor.
Segundo Igor Caruso, nessas circunstãncias uma sentença de morte recíproca recai sobre o casal: um morre na consciência do outro. A pessoa que ama tem de "matar" o se amado dentro de si e acredita que ele trá facilidade em também eliminá-la de sua vida, uma vez que nuca se envolveu de fato. Por isso, convencionou-se chamar o período pós-separaçao de "luto".
É a fase das perguntas que sugem respostas dolorosas:" Será que ele(a) já me esqueceu?". "Por que não consigo esquecê-lo(a)?". " Quanto tempo vai durar essa dor?". " E se já estive envolvido(a) com outra(0)?". É tembém a fase das autossabotagens, de procurar motivos infames pra entrar e contato com o outro, de sondar amigos para ter notícias, fuçar em orkuts.
Esse período doloroso, quando a pessoa luta para permanecer e para sair da união, abala a auto-estima e fragiliza. Para proteger-nos nossa defesas são inconscientemente recrutadas, mas leva tempo para que tenham eficácia. Muitos voltam atrás na decisão de separar-se. Isso só prolonga o processo, tornando-o mais doloroso. Quando não há entrega, o melhor é admitir que a relação plena é inviável e preparar-se para o processo de luto, buscando a ajuda dos amigos e apoio profissional.
A dor de conviver com quem não se entrega pode durar para sempre.
Autor: Rosa Avello, psicanalista, especializada em sexualidade humana (Revista Caras-20-Março-2009)
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