domingo, 12 de setembro de 2010

o amor acaba? o cara disse. Numa esquina, num domingo, depois do teatro e do silêncio, na insônia, nas sorveterias, como se lhe faltasse energia. Ele não volta? Não deixa rastro ou renasce? Na esquina em que se beijaram uma vez, lá está, na sombra apagada pela luz, na poeira suspensa, na revolta da memória inconformada.
Na solidão, lá vem ele, volta, com lamento, um quase desespero, e penso nos planos perdidos, que vida sem sentido... Na insônia, o amor cai como uma tonelada de lápide, e se eu tivesse feito diferente, e se eu tivesse sido paciente, e se eu tivesse insistido, suportado, indicado, transformado, reagido, escutado, abraçado? Na sorveteria, ele volta, o amor, em lembranças. Porque aquele sabor era o preferido dele, aquela cobertura era a preferida dele, aquela sorveteria era a preferida dele, aquela esquina, aquele bairro, aquele clima, aquela lua, aquele mês, aquela temperatura, aquela raça de cachorro, aquele programa de fim de tarde e aquele horário sem planos.
No elevador, quantas saudades daqueles segundos em silêncio, presos na caixa blindada, vigiados por câmeras camufladas, loucos para se agarrarem, rirem, apertarem todos os botões, tirarem a roupa, escreverem ao lado da placa: 'eu te amo'. Saudades é amor, não se tem saudades do que não se amou.
O amor não acaba, porque tenho saudades, me lembro dele, me preocupo com ele, torço por ele e se sonho com ele, meu dia está feito. O amor não pode acabar, porque sem ele ou sem a esperança de revê-lo, até a chance de tê-lo de volta, não vejo a paz. Ele é uma trégua na minha guerra pessoal contra a minha paixão por ele. Amá-lo me faz bem. Mesmo que ele não me ame, amo amá-lo. Continuei amando desde o dia em que terminou. Passei meses amando como se não tivesse acabado. Ficaria anos amando mesmo se não tivesse voltado.
O amor não acaba, muda. O amor não será, é. O amor está. Foi. Nas tantas músicas que ouvimos, que dançamos colados, trilhas das nossas noites frias, enquanto os meus braços imobilizavam os seus.
O não-amor é o vazio. O antiamor também é amor. Eu te amava quando você respirava no meu ouvido. (...) O amor acabou quando você se foi? Você sentiu saudades das minhas paredes, das cores das minhas camisas, da umidade da minha boca, do cheirinho do meu travesseiro, da minha torrada com mel, das noites assistindo à tevê, dos vinhos entornados no lençol, do café da manhã com jornal, você sentiu falta de atravessar a avenida comigo de mãos dadas, de correr da chuva, de eu te indicar um livro, do cinema gelado em que vimos o filme sem fim, torcendo para acabar logo e ficarmos a sós, você sentiu falta da minha risada, inconveniência, de eu ser sua amante, noiva, amiga e mulher, dos meus olhos te espiando, dos meus dentes mordendo e mastigando, ficou tanto tempo longe e pensou em nós especialmente bêbado ou louco, queria me ligar, me escrever, meu cheiro aparecia de repente, meu vulto estava sempre ali... Acaba?
Diz que acaba. Como acaba? Não acaba. Diz, não acaba. Repete. Não falei? Não acaba. Pode virar amor não-correspondido, pode ser amor com ódio, paixão com amor. Tem o amor e o nada. Ah, mais uma coisa antes que eu me esqueça: O amor não acaba... se acabar, não era amor.






Não, o amor não acaba.

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