Carta 9
Dentre todos os lugares que decoramos de Paris eu escolhi a rua Solidão. Não só por mim, mas pelo mundo. Também sou gentil. Durante a noite pensei comigo amor, enquanto não fazia nenhum esforço para dormir, que talvez, sonhar seja como morrer para dentro. E que por isso eu ando tão cansado. Tenho acumulado existências em excesso e tudo isso me pesa. Preciso morrer um pouco. Em compensação, tenho observado tudo em detalhes. Alguma valsa desafina há alguns quarteirões e eu quase posso ouvir seu sorriso vago. Tudo parece preciso, little bird. E começo a acreditar nos seus astros e a pressão do destino. Pequena Eliza, não se intimide com minhas palavras de vítima e dramas tão seus. Aprendi contigo e você deve reconhecer seus próprios truques e segredos. Tenho que te contar algo terrível e quem sabe, imperdoável. Pode doer e eu sei que você adora a dor, mas isto também é diferente. Mentiram para nós. Todos os poemas e histórias de amor que dizem que a lembrança é eterna e que nada se perde. E que é a memória que permanece. Amor, tentei lembrar de qualquer frase tua exagerada e descobri que sua voz está sumindo. Estou esquecendo e não há nada mais aterrorizante que isto. Procurei teus vídeos e qualquer coisa do tipo e lembrei que deixei tudo em casa quando vim te procurar na tua cidade preferida. Mas foi procurando que te perdi. Você já havia alertado: é preciso não procurar nada, não esperar absolutamente nada. Mas ainda insisto. É muito difícil não seguir teus passos, minha querida.
Nunca tinha visto tanto sol em Paris. E queria você aqui.
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