Ela gostava de romance; ele, de ação. Ela queria um voo de helicóptero sobre a cidade do Rio de Janeiro, ver o Cristo; ele, saltar de paraquedas em qualquer cidadezinha espaçosa. Ela era emoção; ele, radiação. Ela usava conceitos grandes: sempre, eterno, atemporal; e ele não acreditava nessas coisas. Amor não bastava. Amor era escasso. Foge comigo, minha garota?, dizia ele. Fujo não, te quero em casa, em meu lençol, em meu disco de músicas antigas, em minha panela de doces, respondia ela. Mas, amor, preciso de aventura, onde já se viu parar de correr, de pular, de gritar e abrir os braços para as milhares de sensações que esse mundo pode nos oferecer?, contestava ele. Não quero, não posso, meu menino, não me quebra de vez, não me desmancha, eu tenho medo de morrer, tenho medo, fica aqui comigo, me abraça, preciso de proteção, preciso ficar sentada, não podemos nos machucar, amor, não podemos nos perder, me escuta!, e doía, doía cada palavra que saía da boca da garota, não conseguia convencê-lo, não produzia efeito algum sobre uma alma aventureira. Era a estaca cravada, a moeda perdida, o jogo, a aposta. Meu Deus, como eu te amo, és minha vida, menina, foge comigo, vem pra mim, pois já estou indo, vem, me acompanha, palavras dele. Não, amor, fica, fica, senta aqui do meu lado - e batia no sofá - é perigoso, pelo amor de Deus, palavras dela. Vem, o tempo é curto, a vida é breve e eu quero te mostrar o mundo, minha menina - e ia dando passos largos, ia ficando pequeno aos olhos dela, distante, breve como a vida. Meu amor, fica, fica, fica - repetia como o próprio disco furado, as lágrimas caíam, ferida no peito, soluçava, olhos vermelhos, boca trêmula - não vá embora, tenho medo… A voz ia ficando ao fundo, ele distante. Em sinal de último fôlego, o garoto ouviu aquilo que o faria destemer as próprias escolhas, bem baixinho: Meu menino… Fica! Esse lugar é só teu. Tudo aqui é teu, sou tua! Fica, volta, não consigo mais te ver. Esse lugar será para sempre teu. Até logo.
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