domingo, 26 de junho de 2011

1.

Ela havia chegado mais cedo do que o esperado no aeroporto. Sentou-se numa cadeira próxima a área de embarque e aguardou. Olhava os rostos indo e vindo, e imaginou quais seriam as historias que traziam contigo. Será que tal como ela, haviam perdido o amor de suas vidas? Ou seriam eles os amores perdidos de alguém? Afastou a ideia da cabeça, nao queria pensar nisso agora.
Esticou as pernas e cruzou os braços, estava ansiosa, e nao sabia o que esperar do dia de hoje.
Era inevitável que algumas lagrimas rolassem, mas nao podia chorar, nao naquele momento.
Verificou ao redor pra ver se ele nao havia chegado mais cedo, mas sabia que o único aeroporto da cidade nao era la tao grande para desencontrar alguem. Pensou se nao era melhor ir embora, e tentar ignorar a ida dele. Mas sabia que nao era possível.
Torcia por ele, sabia que havia chegado o momento que ele planejou durante todos os anos da faculdade. E sabia também que nao existia a possibilidade de um namoro a distancia. Ele ja teve pessimas experiencias, e sabe que nao poderia confiar de novo, embora a amasse. E ela também era insegura o suficiente pra nao ficar tranquila por nao saber o que ele estava fazendo tao longe. Era insegura por saber que nesse mundo existem mulheres tao mais interessantes do que uma simples estudante de arquitetura, que entrou nas aulinhas de inglês recentemente. E que nunca poderia visitar o namorado no exterior.
Sabia disso. Sabia antes mesmo de o conhecer melhor. Ela não podia reclamar, conhecia o risco da distancia desde o primeiro dia que saíram naquela noite de segunda. Ele quem levantava a hipotese perguntando se "valia mesmo a pena começar qualquer coisa se ano que vem ele estaria mudando de país". "Tolinho" Ela pensou, era capaz de nem estarem juntos no outro dia. Mas não foi isso que aconteceu.
Sentada no banco do aeroporto ela suspirou quando reviveu todos os momentos até ali. O tenebroso dia da partida havia chegado, o dia que tantas vezes ela preferiu ignorar, mesmo que a ideia a consumisse por dentro. Havia pensado tanto nesse dia, que mal podia crer que o maior pesadelo das noites de insonia estava virando realidade. Idéia que nao deixava de a machucar, mesmo que ainda faltassem meses pra acontecer. No fundo, ela sabia que realmente iria acontecer, e que tal como prevera, eles nao continuariam juntos após.
O dia chegou, e ao contrario do que pensavam tinham conseguido ficar juntos durantes os melhores meses da vida de ambos.
De olhos fechados ela perguntava se era mesmo justo que o único menino que a fez sentir segura e amada partisse, o que fez seu estomago embrulhar e seu coração ficar ainda mais apertado.
Por mais que soubesse que o dia chegaria, e por mais que imaginasse o que iria fazer, como iria se sentir, por mais que tecesse diferentes planos, nada chegava perto do que estava sentido agora. Porque la no fundo tinha esperança de que esse dia nao chegasse ou ao menos que eles continuariam lutando pelo amor tao singelo que sentiam. Mas as vezes, só o amor nao é o suficiente.
Os ponteiros do relógio mostravam que estava quase na hora dele chegar. Ela sabia que nao deveria ter ido, mas nao conseguiu evitar. Tinha falado com ele que nao iria ao aeroporto ha dois dias, quando terminaram. Não poderia suportar em dobro a dor da despedida, a dor da perda.
Mas lá estava ela, sentada de frente a porta de embarque esperando que a qualquer momento desperte do pesadelo que a envolveu nas ultimas semanas.
Nao podia negar a confusão de sentimentos que se apoderou do seu corpo. Nao conseguiria ficar em casa, tinha que dar um ultimo abraço e um ultimo "se cuide". Ela queria cuidar, ela queria abandonar tudo e ir junto, queria poder o ver todos os meses, falar que o ama, continuar sendo a namorada dele, titulo antes que nunca deu tanto orgulho, mas seu conto de fadas tinha chegado ao fim sem o "felizes para sempre".
Foi então que chegaram, a família, os amigos, e ele. Todos felizes, todos sorrindo, porque continuariam fazendo parte da vida dele mesmo com ele longe. Ela era a única que saíra.
Nao conseguiu conter as lagrimas quando saiu correndo para abraça-lo. Sentiu seu corpo, seus cabelos, seu cheiro. Ele nao pode conter a surpresa de ter a visto. Se abraçaram por um longo tempo, ambos sentindo o amor de um pelo outro, ambos sentindo a mesma tristeza. Ambos sabendo que nao podiam fazer mais nada.
É difícil esperar por algo que você sabe que nunca poderia acontecer, mas é mais difícil de
largar, quando é a única coisa que você quer.

Ele tinha que ir embora, ela murmurou o "te amo, se cuida" e se virou antes que ele pudesse responder alguma coisa.
E enquanto ela ia embora pra casa, pensou em como a vida dela se assemelha a um aeroporto, muitos chegam, muitos partem, ninguem fica. Foi assim que aconteceu durante toda a sua vida, com seu pai, seu avo, seus amigos, alguns namorados que nao valiam nada, e agora com ele, que tanto valia mas que como os outros, foi embora.
Ela se via sozinha novamente. E sozinha foi como decidiu seguir. Sem mais partidas, ela agora que ia embora.
Reveu alguns planos, traçou novas metas, seguiu alguns destinos. E nunca mais se viram novamente. Ele chegou a voltar para o Brasil, ela decidiu nunca mais chegar perto de algo que lembrasse o maior amor da sua vida.
Ele ainda pensa nela, ela ainda o ama. Se cruzaram algumas vezes pelas redes sociais. Ele com sua nova namorada, ela com seus dias frios e cafés que aprendeu a apreciar por causa dele.
Doía em ambos, mas seguiam em frente.

Porque afinal, a vida era assim, de idas e vindas, e restavam apenas boas lembranças e uma história deliciosa.

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